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Entrevista

Como é que correu o curso?
Muito bem mesmo!
Tivemos muita gente a nos telefonar e a contactar para realizarem esse curso.
É preciso não esquecer que nessa altura eu ainda mexia com as pessoas,
ou seja, tinha acabado de conquistar o meu segundo título nacional de DJ's, algo raro e inédito em Portugal, o meu nome saía em tudo quanto era revista e jornais,
e recordo-me até de uma belíssima entrevista que me fizeram na "Nova Gente" e que quer-me parecer, contribuíu de alguma forma para que o fenómeno de
popularidade, que nessa altura ultrapassava fronteiras, tivesse também contribuído para essa enorme procura pelo curso.

Foi o primeiro curso em Portugal, para DJ's...
Sim, tive inclusivé pessoas a me telefonarem de vários pontos do país a me perguntarem se estaria disponível para fazê-lo também no continente. Quanto
aos rapazes e raparigas que se inscreveram na Madeira, quase todos eles sem excepção utilizaram as técnicas que lhes ensinei, uns em discotecas
profissionais e muito boas, como as Vespas e o Farol, outros em rádios como o Romano Faria, que também chegou a trabalhar muito tempo nas Vespas, e finalmente outros que criaram as suas empresas e passaram a
animar festas e casamentos.
O Nélio por exemplo, tornou-se num grande mixer DJ e chegou a dar autênticos show's de técnica nas Vespas, e se tivesse o juízo que não teve, poderia e deveria muito naturalmente, ser depois de mim, o melhor DJ do País.

Teres sido o melhor DJ de Portugal, que significou?
Sobretudo recompensa, reconhecimento a dobrar, porque toda a gente sabe que esta actividade, pelo menos naquela época, as pessoas não a entendiam muito bem, não percebiam porque é que um miúdo deixava os estudos
para seguir esta profissão…Mas hoje, tudo isso mudou.
Foram DJ's como eu e antigos colegas meus, que nas décadas de 80 e 90, tornaram possível que estes novos DJ's, agora elevados à condição de artistas, alguns, verdadeiras estrelas da música, atingissem o inegável actual estatuto de artistas... Esta actividade passou muito rápidamente de amadorismo a
profissão, e desta a arte, alguns DJ’s no passado, transformaram-na em arte.

E é mesmo arte, ser- se DJ?
Claro que sim, repara que para além dos discos tens ferramentas, vulgo aparelhos ou equipamento que manejas com destreza, empenho e arte, e aqui é que está a questão, nunca te repetes, é um trabalho criativo, artístico porque crias a toda a hora novos sons, novos efeitos, até podes cantar se quizeres, mas se não o souberes fazer, poderás divertir plateias de público imenso, só com as tuas músicas, com os mix's e remix's que fazes de outros cantores e também as tuas próprias músicas. Todo o trabalho que seja criativo, é eminentemente artístico.

Mesmo a tocarem músicas de outros?
Sem dúvida e por uma razão muito simples, não pelo aspecto do direito de autor em si, que pertence a quem canta, a quem escreve, a quem compõe ou produz,
mas pelo processo criativo que tu colocas no ar!
Podes utilizando técnicas, mesmo sem aparelhos, fazer o tal disco ganhar efeitos como delays, reverbs, ecos, phasings, tudo isto ao vivo e com dois discos iguais, um em cada gira-disco. Podes criar ao vivo Remix’s, loops, misturar acapellas com instrumentais, etc. É como amar, "o amor está no ar", se souberes colocar todos os ingredientes, a formula não se esgota, atrais o teu próprio parceiro/a ainda mais...

Es como una recreacion?
Na pista é o público, que reage por aquilo que fazes e sabes fazer, e para te dar ainda um melhor exemplo, de que os DJ's têm o seu próprio repertório, é quando tens a teu lado na cabine um colega DJ que te copia. É preguiçoso, imita-te e quando não estás na sala, toca todas as tuas músicas, passagens ou sequências, em vez de procurar tocar as suas próprias canções e criar
as suas próprias misturas!
Isso é absolutamente abominável e representa uma grande falta de respeito, aqui está, pela criatividade, a tua... e só a tua criatividade...

Nos teus cursos, falas de ética?
Sempre, aliás é um curso muito, muito poderoso, onde são abordados vários aspectos da relação profissional com os clientes, o respeito a vários níveis, mesmo até do excesso ou não de décibeis na sala, as máquinas de fumo, se estão a incomodar o cliente ou não, as várias culturas musicais, estará a gostar da música ou não, e portanto o maior número de conhecimentos a esse nível, e por último para mim como perfecionista, a enorme estrutura técnica por detrás de um DJ, não aquela dos aparelhos, que também são importantes, mas das técnicas de trabalho. O conhecimento comanda a vida, e nesta área quem quer ser ou pretende vir a ser um bom DJ, terá de dominar vários e complexos itens...

Que achas dos jovens quererem ser DJ's?
É impressionante, até por se tratar de um fenómeno que tem contagiado imensos jovens. Existe um grande desejo, diria mesmo um enorme e procurado desejo por parte da malta nova, curiosamente agora também das raparigas, em se tornarem DJ's. Talvez tudo isto tenha a ver com o facto de pretenderem seguir uma carreira artística de mais fácil acesso, é a geração MTV a funcionar pelo facilitismo das coisas, quando na minha opinião ser-se DJ, requer também muitos outros conhecimentos e a certeza de que terão pela frente uma vida dura, de dificuldades, em que só triunfarão os melhores, como em tudo na vida.
Não é uma palavra de desconforto para eles, mas na minha opinião, a malta jovem nunca deveria deixar os estudos, para se dedicarem em exclusivo a esta profissão.

É isso que dizes aos que te abordam e pretendem o curso?
Embora não seja exemplo, porque deixei os estudos para me dedicar cem por cento à paixão da minha vida que era a rádio, na extinta Estação Rádio Madeira onde começei com apenas 13 anos, algo inédito na altura, aos 17 anos assinei o meu primeiro contrato profissional na qualidade de disc-jockey no antigo Hotel Miramar. Eu aconselho sempre os jovens que me abordam, no sentido de primeiro terminarem os seus estudos, mas também sei que existem excepções na vida de cada um e de cada família, que poderão condicionar essas decisões.

Como por exemplo?
Dar-lhe-ei um exemplo que me arrepia e muito me arrependi até hoje.
Um ilustre pai de um jovem, figura conhecida na Madeira, telefonou-me um certo dia anos atrás e pediu-me para ajudar o seu filho, que não queria continuar a estudar, que andava muito desmotivado, e que a sua maior paixão era ser DJ e aprender comigo todas essas técnicas, etc.
Pelo respeito que tinha e tenho pela dita personalidade, no meu modesto entendimento, a forma mais honesta de o ajudar seria fazer-lhe ver que nos estudos é que estava a virtude, e que a profissão de DJ não lhe daria um grande futuro. O pai muito comigo insistia, chegou a marcar até um encontro a três, mas eu fui inflexível, às tantas, já estava a fazer de pai, tentando lembrar- lhes que teria uma melhor qualidade de vida, fora da discoteca. Mais tarde, alguns anos depois, fiquei a saber que a tristeza que na altura tinha invadido aquele jovem desmotivando-o dos estudos, estava relacionada com a perda do seu irmão e que o abalara imenso. Fiquei em estado de choque, e o meu desejo era já poder ter ajudado aquele jovem, que encontrava na arte de ser DJ, uma tábua onde se agarrar e a motivação certa para aquele momento de angústia de sua vida, e onde o futuro e os estudos deixaram de fazer sentido para ele. Tudo isto era um filme que eu já conheçera aquando da morte do meu encarregado de educação, o meu padrinho, quando eu tinha 13 anos...
Espero que um dia mais tarde, este jovem reconheça que ao prosseguir os estudos, tentei ajudá-lo na sua formação como homem.

E que conclusão tiraste?
Depois deste caso, não tenho dúvidas, é preferível que um jovem faça algo que muito goste e anseie profissionalmente, que cair nas teias da desmotivação ou então traír a sua própria vida, muitas vezes com erros de trajectória sem regresso.
Sejam felizes, mas com juízo.

Pretendes vir a realizar um novo curso no Funchal?
Por razões profissionais, a minha disponibilidade é como sabem extremamente
limitada para ministrar um novo curso. Se consultarem o link deste site na área de rádio, a minha grande e verdadeira paixão, verão como é o meu dia a dia profissional.
Tenho recebido vários pedidos entre os quais dois aliciantes convites por serem instituições importantes. Aqui hà uns tempos atrás foi o Inatel, e muito recentemente um organismo oficial, que estou a estudar de forma a poder ultrapassar o problema da minha disponibilidade, até porque também estou a ponderar saír por uns tempos para me especializar melhor na área de Produção, Estudos e Tecnologias de Música.

Já deste cursos em Espanha...
É verdade, mas também já aconteceu o inverso, também já frequentei um curso de Audio do Centro de Sonido e Imagem de Madrid e que hoje ao consultar os espectivos dossier's fico espantado com a utilidade e actualidade dos mesmos, não só em termos meramente académicos na sua forma de conhecimentos teóricos e didácticos, mas também na utilidade prática no dia a dia da minha profissão, uma vez que como sabem, estou muito ligado por carreira, à área de estúdio e criação sonora.

Jingles?
Jingles e não só!
A criação de peças sonoras, efeitos, quer com CD's, quer com sintetizadores,
explorando ao máximo os osciladores, a intensidade harmónica, os sampler's,
as novas técnicas de gravação, que aliás como disse, irei aproveitar para estudar mais a fundo...

Voltando ao curso, quanto tempo a duração do mesmo?
Aquele que foi de facto o primeiro e mais completo e complexo curso de DJ que alguma vez se deu, ou se fez, não só na Madeira como em Portugal, deu-me trabalho pelas barbas. O mínimo são sempre 3 meses, mas os mais atrasados na aprendizagem, e mesmo os mais avançados, ficaram comigo uns meses mais, com uns a melhorarem os conhecimentos e sobretudo a prática das misturas, e os outros mais avançados a aprenderem a arte de remisturar, os remix's, a produção, etc.

É portanto um curso a sério?
Sério é favor! Para além de ter ensinado todos os segredos e técnicas, dei a possibilidade desses jovens estagiarem comigo, nos sítios onde eu actuava. Sempre lhes disse, agora o mais importante é vocês começarem a mostrarem o que valem, com público a sério pela frente e levava-os comigo, primeiro para os bailes de finalistas, uma vez que naquela altura era muito requisitado para
imensos bailes de finalistas e estes jovens eram uma espécie de meus assistentes, que depois se perpetuaram mesmo em postos profissionais e aos poucos foram evoluíndo e desenvolvendo capacidades. Sei que a grande maioria deles, estão muito gratos, por os haver ajudado.


Técnicas utilizadas pelo antigo Campeão da Alemanha e Bi- Campeão de Portugal DJ's:

BACK SPINS
CUT MIX's
FLY MIX's
PSEUDO FLY MIX's
LIVE MEGAMIXING and REMIXING
LIVE PHASING
LIVE DELAYNG
LIVE REVERBING
ACAPELLA / GROOVE / ACAPELLA
LIVE LOOPING

Com estas técnicas utilizadas em simultâneo João Canada tornou-se Campeão Alemanha DJ's em 1985, e por duas vezes Campeão Portugal DJ's 1987 e 1990.
Décimo do Ranking Mundial em 1988!
LIVE LOOPING foi a técnica utilizada por João Canada aquando da conquista do
título de Campeão DJ's da Alemanha em 1985! Com 2 ou 3 Turntables, João Canada utilizou em tempo real um LIVE LOOPING, uma das técnicas mais desconcertantes e de rara beleza!
Com dois discos iguais no tema "Into The Groove" de Madonna, João Canada criava um remix ao vivo, repetindo várias vezes a chamada zona intro...do disco, utilizando para o efeito o crossfader da mesa de mistura, cortando cada disco, no final do segundo compasso musical, numa sequência alucinante, rápida e vertiginosa, quase que a fazer pertencer à mesma secção do disco!
O júri liderado por Ben Liebrand figura dos DJ's internacionais elogiou no final, tal desempenho.

Entrevista conduzida por Sandra Goriz

 

 
 
 
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